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Das pesquisas ao Congresso: como a eleição de 2026 está moldando a agenda legislativa

25 de ago.
5 min de leitura

Uma pesquisa eleitoral não serve apenas para mostrar quem está na frente. Em disputas competitivas, sua função estratégica mais importante é revelar quais dimensões da vida cotidiana estão organizando o voto — e quais políticas passam a ter maior valor eleitoral para governos, candidatos e parlamentares.


O cenário presidencial de 2026 ilustra essa dinâmica. Pesquisa BTG/Nexus divulgada em 24 de agosto mostra Lula com 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 37% de Flávio Bolsonaro. Em eventual segundo turno, os dois aparecem tecnicamente empatados: 46% para Lula e 45% para Flávio. Lula lidera, mas não está em posição confortável ou imune a mudanças.

A cautela metodológica é indispensável: pesquisa não é destino. Ela registra preferências em determinado período, sob um desenho amostral e uma formulação específica de perguntas. Mais importante do que transformar percentuais em profecias é compreender as percepções, prioridades e rejeições que os produzem.


O eleitor vota na experiência percebida

Na teoria da escolha racional aplicada à política, especialmente a partir de Anthony Downs, o eleitor realiza uma avaliação retrospectiva do governo. Ele compara os benefícios e prejuízos que acredita ter experimentado com aquilo que imagina receber de uma alternativa.


Downs chama esse fluxo de benefícios percebidos de renda de utilidade. Ela inclui renda, emprego e serviços públicos, mas também segurança, tempo disponível e qualidade de vida. O conceito não pressupõe informação completa ou cálculos perfeitos: a decisão é orientada pela forma como o cidadão conecta a ação do governo à própria experiência.


Por isso, a percepção sobre o supermercado e o orçamento doméstico pode ser politicamente mais relevante do que um indicador macroeconômico isolado.


O supermercado virou campo de campanha

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro chegou às gôndolas. Flávio, Nikolas Ferreira e outros influenciadores passaram a divulgar vídeos sobre preços de alimentos e perda de poder de compra; o campo governista respondeu com comparações de valores e dados de inflação.


Segundo dados utilizados pela campanha de Lula, os alimentos subiram 54% entre 2019 e julho de 2022, contra 13,7% entre 2023 e julho de 2026. Apesar disso, levantamentos citados pelas campanhas indicam que quase 70% dos cidadãos consideram que o custo de vida aumentou.


Não há necessariamente contradição. A inflação mede a variação dos preços; o eleitor avalia também renda disponível, endividamento, juros, emprego e a quantidade de produtos que consegue levar para casa. Os preços podem crescer em ritmo menor e, ainda assim, o cidadão sentir que vive mais apertado.


Essa percepção cria uma vulnerabilidade para Lula e uma oportunidade para Flávio. A estratégia da oposição é transformar uma sensação difusa de perda de poder de compra em uma conclusão retrospectiva simples: “antes meu dinheiro rendia mais”.


É preciso rigor: a percepção de aumento do custo de vida não prova, por si só, que a maioria considere o governo Bolsonaro objetivamente melhor em toda a economia. Mas oferece à candidatura de Flávio uma narrativa capaz de ativar a memória do governo de seu pai e conectá-la a uma experiência cotidiana de alta saliência.


Segurança e propriedade temática

A segurança pública ocupa outra dimensão de alta intensidade eleitoral. Lula e Flávio defendem atingir a capacidade econômica das facções, reforçar fronteiras e isolar lideranças, mas oferecem caminhos diferentes. Lula aposta em coordenação federal, inteligência e prevenção; Flávio enfatiza endurecimento penal, presídios e vigilância.


Flávio possui vantagem de propriedade temática — o chamado issue ownership. A segurança é historicamente associada à identidade política da família Bolsonaro. Isso não demonstra que suas propostas sejam mais eficazes, mas significa que parte do eleitorado tende a reconhecê-lo mais rapidamente como representante de uma resposta firme.


O desafio de Lula é comunicar soluções institucionais complexas de maneira eleitoralmente compreensível. “Mais pena”, “mais polícia” e “mais presídios” são mensagens mais simples do que explicar integração federativa, inteligência e reorganização constitucional.


A proposição em debate é a PEC 18/2025, conhecida como PEC da Segurança Pública. Chamá-la de “PEC das facções” é impreciso: o texto amplia o papel coordenador da União e reorganiza competências, embora o combate ao crime organizado seja um de seus fundamentos.


A escala 6x1 como resposta ao mal-estar

A segunda aposta do governo é a PEC 221/2019, que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, mantém os salários e assegura dois dias de descanso.


À primeira vista, acabar com a escala 6x1 não reduz o preço dos alimentos. Politicamente, porém, responde a outra dimensão do bem-estar: o tempo. Descansar, conviver com a família, estudar e cuidar dos filhos também integra a renda de utilidade do trabalhador.


A pauta permite a Lula deslocar parte do debate da inflação para a qualidade de vida e a valorização do trabalho. Ela também produz contraste com Flávio, que defende modelos de pagamento por hora. Segundo levantamento Datafolha citado na cobertura da tramitação, 71% da população apoia a redução da escala.


Assim, a PEC oferece ao governo uma bandeira concreta para dialogar com trabalhadores do comércio, da hotelaria, da alimentação e de outros setores nos quais a escala 6x1 é frequente.


A reaproximação com Alcolumbre

É nesse contexto que deve ser interpretada a reaproximação entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.


Após sucessivos encontros, Alcolumbre encaminhou a PEC 221/2019 e a PEC 18/2025 às comissões. Na Comissão de Constituição e Justiça, Omar Aziz assumiu a relatoria da proposta sobre jornada de trabalho, enquanto Rogério Carvalho ficou responsável pela PEC da Segurança Pública.


O Congresso não está em recesso formal. O que existe é uma agenda reduzida pelas campanhas, com votações concentradas em poucas janelas. A expectativa é que a CCJ comece a analisar as matérias no esforço concentrado previsto entre 31 de agosto e 4 de setembro.


O interesse eleitoral aumenta a possibilidade de avanço, mas não garante aprovação. É necessário separar o avanço procedimental, a aprovação na CCJ e a aprovação definitiva pelo Senado, em dois turnos e com quórum constitucional qualificado.


Minha avaliação é que há uma tendência forte de avanço, ao menos procedimental, das duas PECs. A razão não é apenas programática: elas respondem exatamente às dimensões em que o governo precisa reduzir vulnerabilidades.


Com a escala 6x1, Lula procura associar sua candidatura à melhora da qualidade de vida. Com a PEC da Segurança Pública, tenta demonstrar iniciativa em uma área na qual Flávio possui maior reconhecimento temático.


Se as propostas avançarem, o governo poderá afirmar que identificou problemas concretos e mobilizou sua capacidade política para enfrentá-los. Se ficarem paradas, a oposição poderá sustentar que o Executivo apresentou promessas sem força para entregá-las. O resultado legislativo produzirá, portanto, um resultado narrativo.


A pesquisa altera os incentivos do Congresso

Pesquisas não aprovam propostas, não formam quórum e não substituem a negociação política. Elas, porém, alteram o cálculo dos atores.


Quando os levantamentos mostram que custo de vida e segurança possuem alta importância e avaliação negativa, esses temas passam a representar risco para o incumbente e oportunidade para a oposição. O Executivo os converte em prioridades; as presidências das Casas calculam o custo de bloquear ou liberar a pauta; e os parlamentares consideram como seus votos serão percebidos pelo eleitorado.


No cenário atual, as PECs da escala 6x1 e da Segurança Pública deixaram de ser apenas proposições legislativas. Tornaram-se instrumentos de posicionamento eleitoral.

A pesquisa mostra onde está a dor.


O Congresso decidirá se a resposta se transformará em política pública — ou permanecerá apenas como narrativa de campanha.

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Leonardo Volpatti é cientista político, advogado e especialista em risco político, relações governamentais e public affairs.


 
 
 

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