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Framework Estratégico: Como Identificar e Capturar Policy Windows

  • Butike
  • 20 de nov. de 2025
  • 7 min de leitura

A experiência internacional e a prática em múltiplas jurisdições permitiram o desenvolvimento de uma metodologia estruturada para navegação de janelas de oportunidade em políticas públicas. Este framework opera em quatro fases integradas, fundamentadas na teoria de agenda-setting de Kingdon e nas melhores práticas internacionais de public affairs.




Fase 1: Inteligência Antecipada

A captura de valor em processos de formação de políticas públicas começa muito antes da abertura efetiva da janela de oportunidade. Esta fase exige sistemas de monitoramento que identifiquem sinais fracos de convergência dos três fluxos (problema, solução e política) descritos por Kingdon.



Monitoramento Multicanal

O monitoramento eficaz transcende o acompanhamento tradicional de proposições legislativas. Segundo as melhores práticas de government affairs documentadas pela McKinsey, organizações de alta performance estabelecem sistemas integrados que abrangem:


  • Proposições legislativas e regulatórias: Monitoramento de projetos de lei, medidas provisórias, decretos e resoluções em tramitação nos poderes Executivo, Legislativo e agências reguladoras.


  • Consultas públicas: Acompanhamento sistemático de processos de consulta pública de agências reguladoras, que frequentemente sinalizam intenções regulatórias antes da formalização de normas.


  • Estudos técnicos e notas técnicas: Análise de documentos produzidos por órgãos governamentais, think tanks e centros de pesquisa que alimentam o policy stream (fluxo de soluções).


  • Discursos e pronunciamentos: Monitoramento de declarações de autoridades públicas, que podem sinalizar mudanças no politics stream (fluxo político).


  • Mídia especializada e redes sociais: Identificação de temas que ganham atenção pública e podem alimentar o problem stream (fluxo de problemas).



Mapeamento de Policy Entrepreneurs

Kingdon define policy entrepreneurs como "indivíduos ou organizações dispostos a investir seus recursos — tempo, energia, reputação e, às vezes, dinheiro — na esperança de um retorno futuro". Segundo Mintrom, esses atores podem estar dentro ou fora do governo, em posições eleitas ou nomeadas, em grupos de interesse ou organizações de pesquisa.


No contexto brasileiro, o mapeamento eficaz de policy entrepreneurs inclui:


  • Parlamentares-chave: Relatores de comissões temáticas, presidentes de frentes parlamentares e líderes partidários com histórico de atuação em temas específicos.


  • Burocracia técnica: Secretários executivos, diretores de agências reguladoras e assessores técnicos com capacidade de influenciar a formulação de políticas.


  • Líderes de associações setoriais: Presidentes de federações industriais, confederações empresariais e entidades de classe com capacidade de mobilização.


  • Acadêmicos e especialistas: Pesquisadores de universidades e think tanks cujos estudos alimentam o debate técnico e conferem legitimidade a propostas.


  • Formadores de opinião: Jornalistas especializados, colunistas e influenciadores digitais que amplificam temas na agenda pública.


Mintrom identifica cinco atributos essenciais de policy entrepreneurs eficazes: ambição (disposição para investir recursos), acuidade social (capacidade de interpretar dinâmicas sociais), credibilidade (reputação que atrai apoio), sociabilidade (habilidade de expandir redes) e tenacidade (persistência diante de obstáculos).



Análise de Ciclos Políticos

A probabilidade de abertura de janelas de oportunidade varia significativamente conforme ciclos políticos e calendários institucionais. A literatura sobre policy windows demonstra que certos momentos são mais propícios para mudanças de políticas públicas:


  • Início de mandatos: Novos governos frequentemente possuem "capital político" para implementar reformas estruturais nos primeiros 18 meses de mandato.


  • Períodos pré-eleitorais: Janelas tendem a se fechar à medida que se aproximam eleições, devido à aversão a riscos políticos.


  • Crises e eventos focalizadores: Desastres naturais, crises econômicas ou escândalos podem abrir janelas inesperadas ao colocar problemas na agenda pública de forma súbita.


  • Calendários legislativos: Compreensão dos prazos de tramitação, recesso parlamentar e janelas de votação.




Fase 2: Avaliação Estratégica

Nem toda janela de oportunidade merece ser perseguida. A decisão de investir recursos em um processo de public affairs deve ser baseada em avaliação rigorosa de três dimensões:

Probabilidade de Abertura da Janela

A avaliação da probabilidade de convergência dos três fluxos de Kingdon pode ser estruturada através de um scoring sistemático:


Problem Stream (Fluxo de Problemas):


  • O problema está efetivamente na agenda pública e política?

  • Existem indicadores objetivos (dados, estatísticas) que demonstram a gravidade do problema?

  • Houve eventos focalizadores recentes que amplificaram a atenção ao tema?


Policy Stream (Fluxo de Soluções):


  • Existem soluções técnicas viáveis e testadas?

  • Há estudos, benchmarks internacionais ou experiências piloto que conferem credibilidade à solução?

  • A solução conta com defensores qualificados (policy entrepreneurs) dispostos a promovê-la?


Politics Stream (Fluxo Político):


  • Há vontade política real ou apenas retórica?

  • O tema conta com apoio de atores-chave (governo, líderes parlamentares, opinião pública)?

  • O momento político é favorável (início de mandato, ausência de crises concorrentes)?



Impacto Potencial

A análise de impacto deve considerar tanto o upside (ganho potencial) quanto o downside (risco de resultado desfavorável):


  • Impacto econômico: Quanto uma regulação favorável pode abrir de mercado? Quanto uma desfavorável pode custar em competitividade ou carga regulatória?


  • Impacto estratégico: A mudança afeta o core business ou é periférica? Cria vantagem competitiva sustentável ou apenas evita desvantagem?


  • Horizonte temporal: O retorno é imediato ou de longo prazo? Há riscos de reversão política?



Posicionamento Estratégico

A decisão de posicionamento deve considerar quatro alternativas:


  1. Liderar a agenda: Assumir papel de policy entrepreneur, investindo recursos significativos e aceitando exposição pública. Apropriado quando o tema é central para o negócio e a empresa possui credibilidade técnica.


  1. Seguir coalizão existente: Integrar-se a esforços setoriais liderados por associações ou outras empresas. Reduz riscos de exposição individual e dilui custos.


  1. Opor-se ativamente: Mobilizar recursos para bloquear ou modificar propostas desfavoráveis. Exige avaliação cuidadosa de riscos reputacionais.


  1. Manter-se neutro: Monitorar sem engajamento ativo. Apropriado quando o impacto é marginal ou a probabilidade de sucesso é baixa.




Fase 3: Execução Tática

Quando a janela se abre, a execução deve ser precisa, coordenada e fundamentada em três pilares:



Construção de Coalizões

A literatura sobre formação de políticas públicas demonstra que raramente uma empresa sozinha molda uma política pública de forma sustentável. Coalizões amplificam impacto, conferem legitimidade e diluem riscos. As estratégias incluem:


  • Alianças setoriais: Mobilização através de associações empresariais, federações industriais e entidades de classe.


  • Parcerias com academia: Engajamento de universidades e centros de pesquisa para produção de estudos técnicos que conferem credibilidade científica.


  • Engajamento de ONGs e sociedade civil: Quando apropriado, parcerias com organizações da sociedade civil podem amplificar a legitimidade social de propostas.


  • Coalizões multisetoriais: Alianças com setores adjacentes que compartilham interesses comuns.



Advocacy Técnico

A contribuição mais valiosa em processos de formação de políticas públicas não é pressão política, mas subsídio técnico de alta qualidade. As melhores práticas internacionais, especialmente da OCDE, enfatizam a importância da Análise de Impacto Regulatório (AIR) como instrumento de qualificação do debate.


Os instrumentos de advocacy técnico incluem:


  • Estudos de Impacto Regulatório (AIR): Análises que avaliam custos, benefícios e alternativas regulatórias, seguindo metodologias reconhecidas internacionalmente pela OCDE e Banco Mundial.


  • Análises econômicas setoriais: Estudos que demonstram impactos em emprego, investimento, competitividade e arrecadação tributária.


  • Benchmarks internacionais: Comparações com regulações de outros países, demonstrando boas práticas e lições aprendidas.


  • Minutas legislativas: Propostas de redação de normas baseadas em princípios de legística (técnica de elaboração legislativa), que facilitam o trabalho de assessorias técnicas do Legislativo.



Comunicação Estratégica

A narrativa pública deve conectar a solução proposta ao interesse coletivo, transcendendo a percepção de "lobby corporativo". A estratégia de comunicação deve:


  • Enquadrar o problema em termos de interesse público: Segurança jurídica, desenvolvimento econômico, geração de empregos, proteção ao consumidor.


  • Demonstrar contribuição técnica: Posicionar a empresa como parceira na construção de políticas públicas mais eficazes, não como mera defensora de interesses privados.


  • Utilizar múltiplos canais: Artigos técnicos, participação em audiências públicas, contribuições em consultas públicas, engajamento em fóruns setoriais.




Fase 4: Consolidação de Valor

A janela de oportunidade não se fecha quando a lei é aprovada. A regulamentação, implementação e fiscalização são fases críticas que podem determinar o sucesso ou fracasso da estratégia de public affairs.

Acompanhamento de Regulamentação

A aprovação de uma lei é apenas o início do processo. No Brasil, a regulamentação por decretos, resoluções e instruções normativas frequentemente define aspectos críticos da aplicação prática. As ações incluem:


  • Participação ativa em consultas públicas de agências reguladoras, contribuindo com subsídios técnicos detalhados.


  • Monitoramento de grupos de trabalho constituídos para regulamentação de leis.


  • Engajamento com burocracia técnica responsável pela elaboração de normas infralegais.



Gestão de Relacionamento Institucional

A sustentabilidade de resultados em public affairs depende da manutenção de canais de diálogo institucionalizados com reguladores, parlamentares e burocracia técnica. Isso não significa acesso privilegiado, mas sim:


  • Posicionamento como fonte técnica confiável para esclarecimentos sobre impactos setoriais.


  • Participação em fóruns institucionais (conselhos consultivos, câmaras setoriais, grupos de trabalho).


  • Transparência e conformidade com normas de registro e divulgação de atividades de lobby, quando aplicáveis.



Mensuração de ROI

A mensuração do retorno sobre investimento em public affairs deve traduzir resultados em valor capturado, incluindo:


  • Redução de carga tributária ou regulatória: Quantificação de economia gerada por regimes especiais, alíquotas reduzidas ou simplificação de obrigações acessórias.


  • Acesso a novos mercados: Valor de mercado aberto por mudanças regulatórias (ex: autorização para novos produtos ou serviços).


  • Vantagem competitiva: Diferencial obtido em relação a concorrentes que não participaram ativamente do processo.


  • Redução de custos de conformidade: Economia gerada por simplificação de processos ou redução de litígios tributários.


  • Prevenção de perdas: Valor de riscos regulatórios mitigados ou bloqueados.





Conclusão

A navegação eficaz de janelas de oportunidade em políticas públicas não é arte intuitiva, mas disciplina técnica fundamentada em teoria sólida, metodologia estruturada e execução rigorosa. O framework apresentado integra os fundamentos acadêmicos da teoria de Kingdon com as melhores práticas internacionais de public affairs, oferecendo um roteiro para empresas e setores que desejam transformar incerteza regulatória em vantagem competitiva sustentável.





Referências


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