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Influência com legitimidade: o que Stanford me ensinou sobre como estruturar campanhas de advocacy em tempos de polarização

  • Foto do escritor: Equipe Butike Comunicação
    Equipe Butike Comunicação
  • 18 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Leonardo Volpatti 

Mestrando em Direito (IDP), advogado e cientista político



Em janeiro deste ano, participei de uma imersão acadêmica do mestrado do IDP no Vale do Silício com o objetivo de estudar regulação de inteligência artificial, inovação em políticas públicas e os impactos das novas tecnologias na tomada de decisão governamental. Mas o maior aprendizado não veio de um laboratório tecnológico, e sim de um centro de estudos sobre democracia: o Deliberative Democracy Lab, da Universidade de Stanford.


Ali, fui apresentado ao deliberative polling, método criado por James Fishkin para aprofundar o debate público sobre temas polêmicos e de alta sensibilidade social. O princípio é simples, mas poderoso: as decisões políticas ganham legitimidade quando são precedidas por escuta qualificada, informação equilibrada e deliberação estruturada entre cidadãos diversos. Em um cenário de polarização como o brasileiro, isso é um diferencial estratégico para qualquer campanha de advocacy.


A metodologia já foi aplicada em temas como energia nuclear (Coreia do Sul), reforma da saúde (EUA), mudanças climáticas, legalização de drogas e encarceramento. O processo envolve cinco etapas: seleção de uma amostra representativa da população, aplicação de um questionário inicial, fornecimento de materiais informativos neutros (validados por especialistas de visões opostas), deliberação mediada em grupos pequenos, e reaplicação do questionário ao final. O impacto é mensurável: redução da polarização afetiva, aumento da empatia com o “outro lado” e disposição para consensos realistas.


Esse tipo de escuta não substitui o trabalho institucional tradicional, mas pode qualificá-lo. Em advocacy, não basta convencer autoridades; é preciso sustentar decisões politicamente viáveis e socialmente legítimas. A experiência na Universidade de Stanford me levou a propor uma nova lógica para campanhas de influência: começar pelo diagnóstico do risco ideológico, seguir com deliberação entre stakeholders (usando princípios do deliberative polling), construir narrativas técnicas com base empírica e social, e só então engajar com decisores públicos.


Essa abordagem tem aplicações práticas claras no Brasil. Veja alguns exemplos:


  • Vapes: tema capturado por discursos extremados. Uma escuta com jovens, educadores, médicos e representantes da indústria poderia levar a uma regulação técnica e responsável, com apoio público informado.

  • Cannabis medicinal: um debate com famílias de pacientes, médicos, religiosos e juristas pode gerar empatia e entendimento mútuo — pré-condições para uma política equilibrada.

  • Sistema prisional: sair do confronto de slogans e construir soluções a partir da escuta de policiais, vítimas, ex-detentos e operadores do direito.

  • Legalização de cassinos: deixar de lado o moralismo ou o ufanismo econômico e ouvir operadores do turismo, religiosos, economistas e comunidades locais para formatar uma proposta viável e preventiva.


Executivos e líderes de RIG podem se beneficiar dessa abordagem com quatro ações imediatas:


  1. Incorpore escuta estruturada nos projetos de influência, especialmente em pautas de alto risco político;

  2. Produza materiais técnicos mais neutros, com validação cruzada de visões divergentes;

  3. Organize fóruns deliberativos, com inclusão de vozes críticas e plurais;

  4. Use os resultados da escuta como ativos reputacionais e argumentos técnicos junto ao setor público.


O maior risco hoje não é ser ignorado — é ser percebido como ilegítimo. Em um país onde a opinião pública pode transformar uma proposta técnica em um ringue ideológico, navegar exige mais do que influência: exige método, escuta ativa e disposição para o dissenso construtivo.


A inovação em políticas públicas não começa no plenário. Começa no espaço que poucos estão dispostos a ocupar: o da conversa difícil, com quem pensa diferente.


Olá Sr. Detrator, você aceitaria um café e uma boa conversa?

 
 
 

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